KALEVALA – ÉPICO NACIONAL


KALEVALA

É a epopéia nacional finlandesa compilada de antigas baladas, canções líricas e versos que faziam parte da tradição oral finlandesa. A poesia finlandesa era muito rica, os poemas eram uma seqüência épica de canções sobre fatos míticos e feitos de um herói. As canções líricas, muitas compostas por mulheres, tratavam dos pesares e alegrias do dia a dia, do amor ou dos tormentos da solidão. O cenário era uma paisagem de florestas lagos e algumas comunidades rurais.

Durante as transmissões orais os poemas acabaram ficando misturados e confusos. Os poemas mais antigos são mitológicos e datam do período pagão que durou até o século 12 em algumas regiões do país. Outros são medievais e incluem eventos e personagens que podem ser datados.

A coleta sistemática destes poemas foi iniciada no século 18, o maior compilador foi Elias Lönnrot que achou que os poemas poderiam ser reunidos em uma epopéia contínua. Ele juntou os versos com composições próprias criando uma trama única. O KALEVALA foi baseado na poesia popular mas a estrutura foi criada por Lönnrot. O KALEVALA foi publicado em duas edições: a primeira com 32 cantos em 1835 e a segunda aumentada para 50 cantos em 1840.

KALEVALA é um nome poético para a Finlândia, significa Terra de Heróis. O líder dos filhos do KALEVALA é o velho sábio VÄINÄMÖINEN que tem origens sobrenaturais e é um mestre do KANTELE, instrumento típico finlandês. Outros personagens são o ferreiro ILMARINEN que forjou as portas do céu quando o mundo foi criado; LEMMINKÄINEN o guerreiro aventureiro e conquistador das mulheres; LOUHI a líder de POHJOLA, a terra do norte; e o herói trágico KULLERVO que é destinado a ser um escravo desde a infância.

Entre os dramas principais do poema figuram a criação do mundo e as viagens de VÄINÄMÖINEN, ILMARINEN e LEMMINKÄINEN até POHJOLA para cortejar a bela filha de LOUHI. Durante estas viagens é forjado e recuperado o SAMPO, um artefato milagroso que produz sal, trigo e ouro, sendo considerado como um talismã de felicidade e prosperidade.

Embora o KALEVALA seja um poema pagão, o último canto parece prever o fim do paganismo, a virgem MARJATTA dá luz a um filho que é batizado como o Rei da Carélia e o pagão VÄINÄMÖINEN vai embora levando seu KANTELE e suas canções.

O KALEVALA já foi traduzido para mais de 20 idiomas, inclusive espanhol, infelizmente ainda não existe em português. O KALEVALA serviu de inspiração para muitos artistas finlandeses, entre eles o pintor AKSELI GALLÉN-KALLELA e o compositor JEAN SIBELIUS. O poema “The Song of Hiawatha” de Henry Wadsworth Longfellow também reflete a influência do KALEVALA.

CONTEÚDO DO KALEVALA (Sinopses dos 50 cantos)

1-2. Ilmatar (a Deusa do Ar) desce à água e torna-se mãe das águas. Uma negrinha põe ovos no seu joelho. Os ovos partem-se e dos pedaços forma-se o mundo. Väinämöinen nasce da mãe das águas. Sampsa Pellervoinen semeia árvores. Uma árvore cresce tanto que esconde o Sol e a Lua. Do mar emerge um pequeno homem que abate o carvalho. O Sol e a Lua podem brilhar novamente.


3-4. Joukahainen desafia Väinämöinen para um concurso de sabedoria e perde. Väinämöinen fá-lo afundar-se num pântano com o seu canto mágico. Para salvar a vida, Joukahainen promete a mão de sua irmã Aino a Väinämöinen. Aino suicida-se lançando-se ao mar.


5-7. Väinämöinen procura Aino no mar, consegue apanhá-la na forma de um peixe, mas perde-a. Decide então ir pedir em casamento a donzela de Pohjola. Joukahainen, sedento de vingança, atira uma flecha ao cavalo de Väinämöinen. Väinämöinen cai ao mar. Uma águia salva-o e leva-o para a costa de Pohjola. A velha de Pohjola, Louhi, cuida dele. Para poder voltar a casa, Väinämöinen promete dar-lhe o “sampo” (engenho mágico) feito pelo ferreiro Ilmarinen. A donzela de Pohjola é prometida ao ferreiro como recompensa.


8-9. Na sua viagem para casa Väinämöinen vê a donzela de Pohjola e pede-a em casamento. Como condição de casamento a moça manda Väinämöinen fazer provas sobrenaturais. Ao construir um barco Väinämöinen fere-se no joelho com o machado. Ukko, o deus supremo, usa os seus poderes para estancar o sangue.


10. Väinämöinen, contra a vontade de Ilmarinen, usa os seus poderes mágicos e envia-o para Pohjola. Ilmarinen forja o “sampo”. A velha Louhi esconde o engenho num penhasco. Ilmarinen vê-se obrigado a regressar sem a noiva prometida.


11-12. Lemminkäinen parte para Saari (ilha) à procura de mulher, brinca com as donzelas da ilha e rouba Kyllikki. Lemminkäinen abandona Kyllikki e vai pedir em casamento a donzela de Pohjola. Com o seu canto, faz as gentes de Pohjola sair da casa, mas não encanta o pastor de gado.


13-15. Lemminkäinen pede em casamento a filha de Louhi, que exige como prémio primeiro o alce de Hiisi (alce do diabo), depois o seu cavalo castrado com boca de fogo e por fim o cisne do rio de Tuonela (terra dos mortos). O pastor, sedento de vingança, mata Lemminkäinen e deita-o ao rio de Tuonela. A mãe sabe da morte do filho e parte à sua procura. Com um ancinho, apanha os pedaços do filho do rio, junta-os, e ressuscita-o.


16-17. Väinämöinen começa a construir um barco e vai a Tuonela pedir as palavras mágicas que lhe faltam para o acabar mas não as consegue. Väinämöinen vai buscar as palavras que faltam à barriga de um mago morto, Antero Vipunen, e acaba o barco.


18-19. Väinämöinen parte no seu barco para ir pedir a donzela de Pohjola em casamento. Ilmarinen também vai pedir a mão da donzela, que escolhe o criador do “sampo”. Ilmarinen passa as três provas sobrenaturais: lavra um campo cheio de víboras, caça o urso de Tuonela e o lobo de Manala (as entranhas da Terra) e finalmente pesca um lúcio enorme do rio de Tuonela. Louhi promete a sua filha a Ilmarinen.


20-25. Preparam-se as bodas em Pohjola. Todos são convidados, excepto Lemminkäinen. O noivo e os convidados do noivo chegam a Pohjola. É-lhes oferecido de comer e de beber. Väinämöinen entretem os convidados com as suas canções. A noiva recebe instruções para o casamento, o noivo também. A noiva despede-se da família e parte com Ilmarinen rumo a Kalevala. Chegam à casa de Ilmarinen, onde os convidados voltam a receber de comer e de beber. Väinämöinen canta uma canção de agradecimento.


26-27. Lemminkäinen vai à boda de Pohjola sem ser convidado e exige que lhe seja dado de comer e de beber. É-lhe oferecida uma caneca de cerveja cheia de víboras. Depois de uma luta com canções e com espadas, Lemminkäinen mata o dono da casa.


28-30. Lemminkäinen foge do povo de Pohjola que se prepara para a guerra. Esconde-se em Saari (ilha) onde fica a viver com as donzelas da ilha, até ser obrigado a fugir dos homens ciumentos de Saari. Lemminkäinen encontra a sua casa queimada e a sua mãe numa cabana no meio da floresta. Parte para Pohjola em busca de vingança, mas é obrigado a regressar a casa.


31-34. Untamo e Kalervo zangam-se e da família de Kalervo fica um filho, Kullervo, que com os seus dotes sobrenaturais estraga todos os trabalhos que lhe são entregues. Untamo vende o rapaz como escravo a Ilmarinen. A mulher de Ilmarinen manda o rapaz pastar o gado e, por maldade, esconde uma pedra no pão do pastor. Kullervo estraga a sua faca na pedra e, para se vingar, arremessa as vacas ao pântano e leva feras como gado para a casa. Quando a mulher de Ilmarinen começa a ordenhar as vacas, as feras matam-na. Kullervo foge e encontra os pais na floresta, mas ouve que a irmã desapareceu.


35-36. O pai manda Kullervo a pagar os impostos. Na viagem de regresso, sem saber, seduz a própria irmã. Ao saber a verdade a irmã suicida-se nos rápidos. Kullervo parte para uma expedição de vingança. Depois de matar as gentes de Untamo, regressa a casa, mas encontra toda a família morta. Kullervo suicida-se.


37. Ilmarinen está de luto pela esposa e forja uma mulher de ouro para si. Mas a mulher de ouro é fria. Väinämöinen avisa a juventude para que não venerem o ouro.


38. Ilmarinen é rejeitado pela filha mais nova de Pohjola e rapta-a. A moça aborrece Ilmarinen que por fim a transforma em gaivota com o seu canto mágico. llmarinen conta a Väinämöinen a riqueza que o “sampo” traz a Pohjola.


39-41. Väinämöinen, Ilmarinen e Lemminkäinen partem para ir roubar o “sampo“a Pohjola. No caminho o barco encalha no dorso de um enorme lúcio. Väinämöinen mata o lúcio e constrói uma citara finlandesa (kantele) do seu maxilar. Mais ninguém a consegue tocar, mas Väinämöinen encanta todo o mundo com a sua música.


42-43. Em Pohjola Väinämöinen adormece toda a gente com a sua música e consegue levar o “sampo” para o barco. As gentes de Pohjola acordam e a velha Louhi deita obstáculos no caminho dos que furtaram o engenho. Os expedicionários conseguem fugir, mas a citara cai ao mar. A velha Louhi persegue-os transformando-se numa enorme águia. Durante a luta o engenho mágico parte-se e cai ao mar. Dos pedaços, uns transformam-se em tesouros que ficam no fundo do mar, outros dão à costa na Finlândia, enriquecendo o país. A velha Louhi fica com a tampa do “sampo” e uma vida de pobreza.


44. Väinämöinen procura a sua citara no fundo do mar, sem êxito. Em seu lugar constrói outra, de vidoeiro, e volta a encantar o mundo inteiro com a sua música.


45-46. A velha Louhi espalha doenças para destruir o povo de Kalevala, mas Väinämöinen cura todas as enfermidades. Louhi manda um urso atacar o gado, mas Väinämöinen abate a fera. Festeja-se a matança do urso.


47-48. A velha de Pohjola esconde as luzes do céu e rouba o fogo. Ukko, o deus supremo, lança o fogo para criar uma nova lua e um novo sol, mas as chamas caem na barriga de um grande peixe. Väinämöinen, ajudado por Ilmarinen, pesca o peixe e põe o fogo ao serviço das pessoas.


49. Ilmarinen forja um novo sol e uma nova lua, mas os astros não brilham. Depois de combater as gentes de Pohjola, Väinämöinen regressa e encomenda a Ilmarinen as chaves que podem libertar o Sol e a Lua da montanha de Pohjola. Enquanto Ilmarinen forja as chaves, Louhi deixa que as luzes voltem ao céu.


50. Marjatta fica grávida de uma baga de arando. Nasce um menino na floresta, mas desaparece logo, até que é encontrado num pântano. Väinämöinen condena à morte o rapaz sem pai, mas ele levanta-se protestando contra a sentença. O rapaz é baptizado rei da Carélia. Väinämöinen desaparece num barco de cobre, profetizando que ainda lhe hão-de pedir que traga um novo “sampo”, que faça brilhar um novo Sol e que toque uma nova música.

2 Comments

  1. 1
    Helena Hilden Says:

    muito bom, deve ter dado trabalho para preparar tudo, gostei das ilustrações com as pinturas de Gallén-Kallela, eu já vi algumas originais nos museus da Finlândia.

  2. 2
    Wesley Bastos Says:

    ótimo trabalho! lendo só as resenhas dos contos já foi suficiente para eu admirar a mitologia finlandesa; ainda quero ter oportunidade de ler o Kalevala inteiro.

    E, a respeito do último conto, só queria me redimir à Väinämöinen em nome da nossa ao mesmo tempo atual e obsoleta sociedade cristã, respondendo a sua profecia : “Sim, nós estamos mesmo precisando ‘um novo “sampo”’, ‘um novo Sol’ e ‘uma nova música’ para dar sentido às nossas vidas.


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